domingo, abril 21, 2013

chegar a mão ao pêlo

Num passeio de rotina com a peluda, seguindo pelo passeio, um carro passa por nós e de repente oiço travões a fundo. A janela abre-se e a cabeça de uma rapariga em polvorosa surge, debitando em alvoroço: "Olhe para o meu banco traseiro" Olhe para o meu banco traseiro!".
Olhei. E vi um tufinho tímido em forma de Wire Fox Terrier. Percebi a excitação dela. Acontece exactamente o mesmo sempre que me cruzo com alguém da "família". Algo dentro do nosso coração provoca uma espécie de histeria. Afinal não há assim tantos WFT pela cidade, e partilhamos este sentimento inato de confraria. Por vezes sinto como se pertencesse a uma seita exclusiva, e que certos códigos e sentimentos só pudessem ser compreendidos em absoluto por outros membros da irmandade.
Instantes depois já estava a dona fora do carro, a esfregar o lombo à Milú, e a trocar entusiasticamente histórias caninas.
Apesar dos meus alertas, insistiu em apresentar o seu espécimen (uma dócil cadelinha, de seu nome Lisa) à minha bola de mau-feitio. Novo insucesso, devo dizer. Enquanto a outra abanava inocentemente o traseiro, num convite "Olá! Olá! Eu sou a Lisa, queres ser minha amiga?", Dona Milú cheirou, cheirou, e passados 30 segundos estava pronta a afinfar a dentuça no pescoço da sua semelhante. Passo sempre por estas vergonhas, nada a fazer.
Depois da dona e cadela terem seguido o seu caminho (algo frustradas, imagino), poucos metros adiante cruzámo-nos com uma senhora francesa.
Os momentos de alvoroço e exclamações inerentes à seita secreta repetiram-se... A madame tinha deixado no seu país natal o Umbert, outro quadrúpede da mesma raça.
Take 2 da mesma conversa e excitação, rematada pelo comentário da turista: "Ohhhhh.... que emoção, e tem o mesmo cheiro!".
Com esta fiquei abalada. Até compreendo, se o cão é francês, não deve tomar muitos banhos... mas é prudente não atirar pedras quando se tem telhados de vidro, comento para mim própria, olhando (e cheirando) este pompom pespegado aos meus pés, desgrenhado e fedorento.
Mas pelo menos está feliz. Recebeu atenção e mimos a duplicar. Aliás, a triplicar. Simpesmente porque não me importo de sujar e meter as mãos na massa. Perdão, no pêlo.

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